É triste e vergonhoso acompanhar a discussão sobre o casting de Lupita Nyong’o no filme A Odisseia de Christopher Nolan. Sobretudo porque, por detrás de todas considerações sobre acuracidade histórica, representação étnica etc., o que de fato está acontecendo é um caso de racismo aberto e desavergonhado. Não se trata de avaliar a qualidade da caracterização e a atuação da atriz, muito menos a posição e relevância do papel. Simplesmente as pessoas estão questionando o fato de ela ser negra e, ainda assim, representar o papel que, no imaginário ocidental, deveria ser de uma pessoa branca.
Pausa para registrar uma hipocrisia. Hollywood cansou de escalar atores brancos para representar outras etnias, como Genghis Kan (John Wayne), o prínce persa Dastan (Jake Gyllenhaal), Cleópatra (Elizabeth Taylor), o rei de Sião (Yul Brynner)…
Tudo isso já foi dito, porém. O que eu quero acrescentar é que, se analisarmos o casting de Lupita Nyong’o de um ponto de vista histórico, antropológico e literário, pode-se dizer que a atriz eleva, melhora, aprimora, dá uma dimensão ainda maior e mais bem acabada ao mito da Odisseia. Não se trata de defender a pertinência ou a conveniência da atriz preta no filme; ela, sua atuação, sua imagem marcante, melhora a narrativa, dá ao texto de Homero na sua versão imagem-em-movimento algo que não tinha e fazia falta.
Vamos começar pelo início: a Odisseia é um mito. Não é um romance. Não é história factual.
Se fosse história factual, os personagens deveriam ser retratados em conformidade com os registros históricos disponíveis, segundo uma lista de fontes verificadas. Por que? Simplesmente porque pertença, origem, costume e cultura que uma figura histórica carrega ajuda a ler e compreender as limitações e implicações de seus atos e escolhas. O casting histórico acurado revelaria o olhar, viés, a intenção de quem registra a história, mas haveriam fontes críveis para reconstruir uma sequência de fatos em uma narrativa. Nesse caso, a representatividade étnica seria importante, para dar credibilidade ao relato e, como diria Marx, revelar as intenções da personalidade histórica (ad hominem).
Mas, a Odisseia não é História, é um mito.
Se fosse um romance, seria a expressão subjetiva de uma pessoa autora de ficção situada num contexto histórico, político e cultural particular. Uma autora ou autor escolhe formular a narrativa ficcional de um modo e não de outro, com intencionalidades claras, outras sub-reptícias, algumas delas sequer percebidas por ela mesma, mas quase sempre reproduzindo uma agenda, ou tipo de leitura de realidade sobre a natureza humana, política, sociedade, enfim. Retratar um romance diferente do que a pessoa autora escreveu é possível, mas o melhor é que seja o mais próximo da obra original, para horar a contribuição criativa de quem escreve, talvez realizar suas intencionalidades. Nesse caso, o casting etnicamente acurado talvez faça parte da construção narrativa.
No entanto, não é um romance. A Odisseia é um mito.
Um mito é um relato fantástico, fantasioso, que não exprime necessariamente uma verdade factual, mas reveste verdades de uma comunidade humana com um relato simbólico com ares de parábola. Por vezes, a narrativa de um mito lastreia na realidade em pontos de ancoragem, mas isso não é obrigatório. Ao mito importa a forma, mas mais que tudo, o conteúdo das ideias subjacentes à narrativa, que são expressão dos valores e da leitura de mundo de uma comunidade humana. Por exemplo, os gregos em particular contavam e recontavam seus mitos de formas muito diferentes. Não existia um cânone, embora Homero seja uma referência. Cada pessoa autora acrescentava, diminuía, enfatizava aspectos da narrativa mítica que acreditava ser mais importante para ilustrar o que está por detrás, a sabedoria coletiva.
Na comunidade grega, sobretudo aquela anterior ao surgimento da filosofia e da criação das escolas formais — as primeiras delas o Liceu de Platão e a Academia de Aristóteles —, o mito tinha uma função educacional. Cada narrativa era construída ao redor de princípios fundamentais da cultura que, ao serem contados, transmitiam esses princípios de geração em geração. Ali, se aprendia a evitar hubris (arrogância), cumprir a lei da hospitalidade, a buscar areté (virtude), bem como se ilustrava o que poderia acontecer caso esses princípios de convivência não fossem seguidos. O mito era fundamental na formação do cidadão grego.
Na Grécia antiga o mito não apenas admitia a mudança, se enriquecia nas diferentes versões, pois que contadas e contextualizadas segundo aspectos particulares donde emergia. Não existe apenas uma narrativa dos périplos de Édipo em sua tentativa frustrada de escapar do destino, mas várias, algumas mais conhecidas (Édipo Rei de Sófocles, por exemplo), outras obscuras como de Ésquilo ou Eurípedes. Cada uma destas com nuances de diferenças entre si, as vezes com cenas, falas personagens díspares. O mito é, nesse sentido, discurso vivo, um processo que não se finda, que se energiza nas interpretações, que não tem um jeito certo de se contar. O mito assimila, portanto, criatividade e incremento, pois é reflexo do devir.
Como a Odisseia é mito, não apenas pode mudar, deve mudar para se adequar ao contexto em que é contada.
Por isso, reafirmo, o casting de Lupita Nyong’o não é apenas bonito e de bom gosto. Esse casting ELEVA a obra original. A Odisseia se enriquece, melhora, talvez até supere Homero.
Na antiguidade, a nação mais poderosa do Mediterrâneo não era a Grécia. A ideia de uma Europa sequer existia; os próprios gregos classificavam as tribos germânicas, galesas, bretãs, entre outras, como bárbaros, pois seu linguajar grosseiro parecia com um rosnado aos ouvidos. Os grandes filósofos gregos foram ao Egito estudar. Platão era, antes de tudo, um seguidor de Pitágoras, o qual passou 20 anos no Egito aprendendo os mistérios e a sabedoria (o chamado Teorema de Pitágoras era saber comum no Egito antigo); o Liceu, a escola criada por Platão, seguia sobretudo um ensino pitagórico. Hipócrates estudou medicina na tradição egípcia; o egípcio Imhotep, mais de 2 mil anos ates de Hipócrates, já tratava doenças como decorrentes de causas naturais, não como castigo dos deuses.
O Império Persa, Cartago, Egito, eram comunidades humanas mais avançadas, complexas, mais ricas que jamais a Grécia chegou a ser. É lícito imaginar que a “mulher mais linda do mundo” da antiguidade mitológica não fosse, necessariamente, de etnia grega. Sim, Homero — o qual muitos filólogos argumentam não ser uma pessoa histórica, mas sim a reunião de vários diferentes autores ao longo do tempo compilando narrativas da tradição oral — na Ilíada descreve Helena de Sparta como “de braços alvos” e “de faces rosadas”, ou “de longas vestes”, mas sobretudo de beleza avassaladora e hipnótica. ESSA é a característica distintiva da personagem. A transliteração de contexto e intenção para uma beleza atual, que precisa ser, do ponto de vista narrativo, avassaladora e hipnótica, ganha em riqueza e contemporaneidade na figura belíssima de Lupita Nyong’o.
Mais que isso, Lupita Nyong’o reforça o mito, dá ao relato fantástico uma força ainda maior. Isso porque coloca a Grécia de então num contexto cosmopolita que certamente era o caso das comunidades humanas ao redor das rotas comerciais do mediterrâneo na antiguidade. Quando trazida para a contemporaneidade, na nossa sociedade globalizada, nada mais próximo que retratar a Grécia em contato, admiração, fascínio com o diferente. A própria controvérsia construída ao redor do casting pelos racistas, quer declarados ou envergonhados, prova esse ponto de vista. Não é possível tirar os olhos de Helena no filme, porque ela de fato é a mulher mais bonita daquele mundo retratado, por quem certamente se engajaria numa guerra de 10 anos.
Por isso, reafirmo, Lupita Nyong’o não é meramente adequada para o papel. Ela dá ao mito uma dimensão ainda maior, ainda mais épico. Eu gostaria de ver essa Helena em uma adaptação da Ilíada.
Referências
Barthes, R. (2001) Mitologias (Trad.: R. Buongermino, P. de Souza. 11 ed.) Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Eliade, M. (1972) Mito e Realidade (Trad.: P. Civelli). São Paulo: Ed. Perspectiva.
Jeager, W. (1995) Paidéia: a Formação do Homem Grego (Trad.: A. M. Parreira). São Paulo: WMF Matins Fontes.
Reale, G. & Antiseri, D. (1990) História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média (Trad.: I. Storniolo. 3 ed. vol. 1). São Paulo: Paulus.
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