Um político regional — aquele sudestino de comportamento subserviente, infantiloide, com aspirações nacionais, que foi rifado pelos próprios aliados e partido —, no mote de sua campanha, tem afirmado que o Brasil precisaria de “um novo CEO”. Claro, segundo o próprio, seus parentes e correligionários, esse CEO deveria ser ele mesmo. Supostamente, a palavra “CEO” funciona no discurso do candidato como uma evidência de superioridade, como atestado de que representa uma gestão profissional para o Estado, racional, dedicada ao objetivo da eficiência. No lugar de um político, eleger-se-ia um técnico cujas decisões seriam orientadas a encurtar o caminho até as metas, por meio do uso mínimo de recursos possível. Alguém supostamente não influenciado por interesses, poderes e negociatas; enfim, alguém limpo da tal política partidária.
Dito assim, parece algo contra o que não se poderia levantar crítica.
Ninguém em sã consciência se posicionaria para impedir a eficiência e a racionalidade no Estado. No entanto, toda essa construção é falsa em muitas camadas. Como num show de prestidigitação, anuncia-se um objetivo para encobrir uma finalidade outra. A mera menção da palavra CEO não passa de uma tentativa maquiavélica de silenciar a oposição e de se posicionar num patamar moralmente superior que, na verdade, não existe. A própria ideia de eficiência ali evocada indiretamente carrega em si premissas de funcionamento do Estado cujos efeitos concretos são distantes do benefício da coletividade. Isso sem mencionar que, ao afirmar a falácia, supõe-se implicitamente que (i) o Estado brasileiro é tocado sem técnica de gestão, enquanto (ii) o dito candidato dominaria tais conhecimentos e capacidades.
Quem são os CEOs, afinal?
CEO é um acrônimo da língua inglesa para Chief Executive Officer, uma denominação utilizada no âmbito da grande empresa capitalista para designar o executivo sênior, a pessoa de referência da firma. Normalmente, esse cargo serve de ponte, de liaison entre o corpo administrativo da empresa e seus acionistas ou, no caso de empresas maiores, o Conselho Diretor. Sua função é a de traduzir os objetivos e interesses de proprietários em termos de estratégias empresariais. Nesse sentido, um CEO trabalha tanto mediando a relação entre a organização e o ambiente sociotécnico — lidando com cooperação, concorrência, compliance, marketing, etc. —, quanto promovendo a integração das funções dentro da organização, em termos de estruturação, coordenação, controle e alinhamento.
Interessantemente, a cultura individualista da comunidade de negócios capitalista, em grande parte herança do feitio norte-americano de organizar a economia, sempre deu muita ênfase a esse indivíduo de referência como uma figura de proa, um líder romantizado e super-humano. CEOs famosos foram ao longo dos anos alçados ao status de celebridade, como se individualmente tivessem operado milagres. Suas histórias de sucesso passaram a ser contadas em livros romanceados — de qualidade literária sofrível, é preciso destacar —, nos quais são retratados como se fossem semideuses, e seus feitos, descritos como extraordinários. Jack Welch, Warren Buffett, Jeff Bezos, Steve Jobs: cada uma dessas personagens normalmente aparece como responsável por trajetórias dignas de lenda e mito.
Certamente as narrativas individuais elaboradas ao seu redor permanecem em grande parte tendenciosas, porque normalmente escondem seus erros, simplificam processos complexos e tiram de contexto as condições efetivas que levaram as empresas às quais estavam associados a desempenhar bem. Mas, mais do que isso, o próprio ato de individualizar o sucesso esconde que existe um coletivo de trabalho, o qual, de fato, produz os resultados atribuídos aos CEOs famosos. Estudos refinados têm demonstrado que a ação de líderes individuais representa uma fração insignificante do que verdadeiramente compõe o sucesso da organização.
Contudo, de um ponto de vista ideológico, faz sentido contar a história de forma distorcida, exagerando o papel individual. Essas narrativas funcionam como reforço dos mitos fundadores do capitalismo, tais como a meritocracia, o self-made man e a eficiência presumida ex ante da iniciativa privada, entre outras falácias grosseiras. Como qualquer estrutura social totalizante, segregadora e desigual, as estórias fantásticas de feitos virtuosos operados por gênios que se entronizam acima dos meros mortais cumprem uma função mista. A primeira, a de conservar a concordância coletiva com a manutenção de uma pretensa elite; a segunda, a de justificar os rendimentos exorbitantes e certamente exagerados daqueles que ocupam o topo da hierarquia social.
Da Natureza do Estado e da Firma
Na prática, o CEO é o representante do interesse dos proprietários na empresa. Seu objetivo é moldar a organização segundo aspirações que, em grande parte, se encontram ausentes no dia a dia das firmas. E, no capitalismo contemporâneo, mediado pela indústria financeira, o que interessa ao acionista são lucros e dividendos a curto prazo.
A racionalidade gerencialista que a figura do CEO evoca é pautada na lógica da exclusão e do máximo ganho monetário: o produto, para ser vendido, tem que ser excluível; em outras palavras, deve ser capaz de impedir que todos usufruam, para que alguns paguem pela exclusividade da aquisição. Isso de modo que a empresa seja capaz de encontrar um equilíbrio entre produção e preço que potencialize seus ganhos. Nesse esquema, trabalhadores, benefícios e contribuição social não contabilizada aparecem como custos e despesas, pois o que interessa de fato é o quanto clientes podem e pretendem pagar por algo e, claro, se esse montante supera o valor monetário dos custos que a empresa não consegue terceirizar. A eficiência na empresa capitalista não é representada pelo uso racional de insumos, mas pela capacidade de rentabilizar o capital investido em dinheiro.
O que acontece na realidade é que a lógica do rendimento monetário se faz tão míope que até o desperdício de insumos e produtos torna-se aceitável — em alguns casos, desejável — para engendrar consumo, manter preços e maximizar ganhos. Se a racionalidade da gestão capitalista é a do maior acúmulo monetário, concentrado nas mãos de um grupo de privilegiados, muitas vezes é necessário destruir valor real, operar em retrabalho e sacrificar o bem-estar coletivo. Schumpeter, economista austríaco e professor de Harvard, atribuiu a essa tendência um conceito imponente: destruição criadora. No mundo concreto, é um termo utilizado para racionalizar o fato de que investimentos são desperdiçados, insumos são destruídos sem que se transformem em produtos, casas são deixadas vazias mesmo que haja pessoas sem-teto, comida é jogada fora enquanto milhões permanecem famintos, vagas de emprego são extintas; tudo em nome de transferir mais riqueza monetária para o capitalista.
O que o capitalista chama de eficiência, na verdade, é desperdício. Não são desconhecidos os relatos de empresas de grife, como Louis Vuitton, Bulgari e Giorgio Armani, entre outras, que destroem produtos de estações passadas para que as peças não cheguem ao mercado com preços mais acessíveis. Qualquer cidade de médio a grande porte no Brasil conhece real estate investors — nome chique para especuladores imobiliários — que são proprietários de centenas de imóveis residenciais, muitos dos quais mantidos fechados e fora do mercado para, simplesmente, manipular preços de venda e aluguéis (sem mencionar o fato de que contraventores, traficantes e contrabandistas usam investimentos imobiliários para lavar dinheiro). Quem teve o desprazer de trabalhar em qualquer restaurante, padaria ou lanchonete sabe da enorme quantidade de insumos desperdiçados por processos apressados e de comida boa jogada no lixo todos os dias. Dito de outro modo, quando mensuramos o uso de recursos, constatamos que as empresas são, sempre foram e certamente sempre serão não apenas ineficientes, mas economicamente irracionais.
No Estado, a suposição de saída, ideal, é que a lógica seja o inverso. Na medida em que o Estado expressa, em termos institucionais, as dinâmicas de escolha e de interesses coletivos, deveria operar por princípios como os da inclusão, da proteção de direitos fundamentais, do bem-estar social, da economia de insumos e do uso racional de recursos naturais, visto que são finitos e insubstituíveis. O valor produzido pelo Estado não deve ser excluível; pelo contrário, precisa ser generalizado e universal, de usufruto da população, e não de uma parcela de indivíduos. Para além disso, o Estado tem o papel de orientar as escolhas e os investimentos, a distribuição e o uso de recursos de modo sustentável, tanto para garantir os interesses presentes quanto para não colocar em risco as gerações futuras. Isso tudo incluindo os cidadãos da melhor maneira possível.
Afinal, dinheiro é papel pintado. Sabemos, o Estado sabe, até as marmotas e os esquilos sabem que dinheiro não tem valor de fato; não precisa acreditar em mim, faça um teste, experimente comer dinheiro, morar em dinheiro, dirigir dinheiro. Num certo sentido, a administração pública preconiza o uso do bem até o último suspiro de vida útil, tende a evitar a intervenção meramente voluptuária e contabiliza a quantidade de valores de uso e seus efeitos sociais, mediatos, estruturais, tanto em termos de serviços públicos e bem-estar quanto em estabilidade e dinâmica econômica. Mais ainda: ao Estado importa o longo prazo, a manutenção das redes de distribuição de água, energia e comunicação, das malhas rodoviária e ferroviária, a segurança pública, a formação de um povo instruído e capaz de exercer a cidadania; enfim, de um rol de interesses coletivos que não se resolvem num triênio, muito menos num trimestre. De um ponto de vista da concepção ideal, portanto, a racionalidade do Estado se mostra algo completamente diferente daquela da empresa.
Fica evidente que, quando o Estado é gerido tal qual uma empresa, está-se incorporando não a tão sonhada eficiência, mas sim uma tendência crônica ao desperdício do que importa em nome do ganho individual, algo que proporciona a exclusão de muitos em benefício de poucos. Na medida em que o gerencialista distorce a percepção da sociedade, fazendo com que o dinheiro se torne o centro da administração pública, perde-se de perspectiva que uma política fiscal restritiva economiza papel pintado (dinheiro), mas desperdiça valor de uso (manutenção predial, qualidade educacional, segurança pública, estabilidade e confiabilidade de serviços e de infraestrutura). Pessoas, habilidades, competências, sonhos, vidas inteiras até, assim como insumos, recursos naturais, florestas, mananciais e biodiversidade — essas preciosidades irrecuperáveis — são imoladas em troca de números fictícios nas contas bancárias de alguns.
Não existe desperdício maior do que esse esquema no qual vivemos, uma sociedade que reserva o melhor de sua produção — casas mais confortáveis, viagens fabulosas, vinhos refinados, comidas — para as piores e mais abjetas pessoas: os egoístas e excêntricos milionários (bilionários e, agora, trilionários). Esses mesmos milionários, com o intuito de contornar qualquer contestação contra o seu jugo irracional, precarizam relações de trabalho, esvaziam estruturas de educação formal e colocam em risco a coesão e os instintos coletivos mais importantes para vivermos em sociedade. Literalmente, depredam o meio ambiente social enquanto consomem desmesuradamente o meio ambiente natural para, de um lado, impedir que a população tenha acesso e, de outro, garantir acesso exclusivo para uma casta de parasitas.
O Brasil precisa de um CEO?
Não. Simplesmente porque, ao adotar essa terminologia, o referido candidato está trazendo junto a lógica irracional da empresa para o Estado. Como discutimos mais atrás, trata-se de racionalidades opostas, de modo que os modelos e as técnicas de gestão da empresa simplesmente não servem ao Estado. Não que não seja possível implementar vulgaridades como balanced scorecard, custeio ABC, análise SWOT e reengenharia na administração pública; mas, quando o fizerem, estarão introjetando mecanismos de concentração e de privatização de benefícios numa organização cujo objetivo é — ou, ao menos, deveria ser — o da universalização do bem-estar. Não é à toa que, concomitantemente à mudança de consenso internacional sobre a gestão do Estado que se deu no último quartil do século XX — de uma perspectiva de bem-estar para um paradigma gerencialista —, testemunhamos uma acelerada concentração de renda em escala planetária.
A grande verdade é que, ao se vender como CEO, o político não tenta convencer o povo de nada: a população em geral não faz parte da equação. A fala é um sinal para empresários e capitalistas de que, uma vez no comando do Executivo, trabalhará para que o Estado transfira riqueza, recursos e poder do conjunto da sociedade para os já ricos e poderosos; ali, compromete-se a dar continuidade ao esquema de controle privado do fundo público de poupança e capital, certamente na expectativa de amealhar apoio e investimentos para o seu projeto pessoal. Lembremos: o CEO é o representante dos proprietários e capitalistas na empresa. É exatamente essa a proposta.
Descubra mais sobre Administração Crítica
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.