Há frases que envelhecem mal. Outras amadurecem, como se guardadas em barris de carvalho francês.
Em 2018, quando soube que os Estados Unidos voltariam a sediar uma Copa do Mundo — agora ao lado de Canadá e México —, Diego Armando Maradona disparou uma dessas frases que, na época, pareciam apenas mais uma de suas excentricidades: “Os americanos vão fazer quatro tempos de 25 minutos por causa da publicidade. Vocês vão ver.”
Não fizeram, meio que fazendo.
Inventaram uma tal “pausa para hidratação”. Um nome pretensamente garboso para tentar ocultar aquilo que realmente é: um intervalo comercial disfarçado de preocupação com os atletas. Enquanto os jogadores bebem água, o espetáculo bebe grana. Casas de apostas, bancos digitais, bebidas energéticas, plataformas de investimento. Tudo passa pela tela enquanto bola espera. O Capital, esse não para.
É curioso como as coisas funcionam hoje. Ninguém precisa necessariamente desmontar o futebol, basta administrá-lo, transformando pouco a pouco em outra coisa, até que o futebol continue existindo apenas como uma lembrança distante, um fantasma, uma versão controlada daquilo que foi; um escárnio daquilo que poderia ter sido.
Talvez Maradona tenha percebido isso antes dos demais. Não que previsse o futuro, mas porque compreendia os nexos de coisas que atravessam todas as dinâmicas de nossas sociedades, qualquer cultura, qualquer país. Uma lógica que nunca se satisfaz. Se há noventa minutos disponíveis, essa racionalidade exige algo mais para si, interessada. Num uniforme de time tal lógica pede espaço para mais um patrocinador. Quando emerge um jogador, logo é vertido em ativo financeiro; deixa de ser uma pessoa para ser uma cifra. Se há uma torcida, converte-a em banco de dados. Se há uma paixão, esta poderá ser transformada em necessidade, desejo, demanda… lucro.
É por isso que o problema nunca foi apenas e tão somente a publicidade.
Esse é apenas o sinthoma mais à mostra.
O futebol já havia começado a mudar muito antes. As apostas irrigam orçamentos bilionários. Clubes servem para reabilitar a reputação de ditaduras e conglomerados empresariais. Jogadores são identificados ainda crianças, classificados, mensurados, cultivados como investimentos de longo prazo, transformados em atletas: essa entidade contraditória, sobrehumana e menos que uma pessoa. O corpo deixa de ser um corpo; transforma-se numa plataforma de desempenho, em expectativa de performance, em objeto de entretenimento. Cada músculo, cada centímetro percorrido, cada batimento cardíaco vira informação. Cada informação, por sua vez, apresenta uma oportunidade de otimização.
Dizem que essa é a tal profissionalização.
Termo incriticável, superior por si só no mundo do gerencialista.
(Quase) ninguém precisa de legenda, mas não custa dizer que essa é a apenas a aparência da racionalização, da transformação de tudo em mercado.
Há quem celebre esse futebol dito “moderno”. Transições rápidas. Blocos compactos. Pressão coordenada na saída de bola. Linhas curtas.
É difícil negar a eficiência desse conjunto.
Assim como não dá pra ignorar seus efeitos.
As seleções, os times, as categorias de base, tornam-se parecidas. Os clubes em seu management, equipes construídas por dados de scout, minutagem, gerenciados em termos de capacidade de carga, eficiência de movimentos, jogadas ensaiadas. Os treinadores à repetir o mesmo vocabulário vazio enquanto jogadores executam movimentos cada vez mais semelhantes, como um ballet sincronizado à exaustão. Até os corpos convergem para um mesmo modelo: altos, fortes, velozes, explosivos.
Paradoxalmente, nunca houve tanto talento disponível e tão pouca singularidade em campo.
Até os erros estão desaparecendo.
O árbitro já não erra sozinho. Agora o equívoco é acompanhado por câmeras, sensores, algoritmos e protocolos. A máquina promete eliminar injustiça, como se fosse possível produzir um jogo absolutamente equilibrado em suas decisões de querelas sem, ao mesmo tempo, eliminar parte daquilo que faz dele um jogo: a incerteza.
Há algo profundamente curioso nisso tudo.
A tecnologia chega sempre anunciando justiça. Mais precisão. Mais transparência.
E, no entanto, o resultado costuma ser exatamente o contrário: controle e pasteurização.
Uma peleja cada vez mais monitorada, regulamentada, mensurada, calculável, previsível. Cada lance produz todo um rol de informações que, por sua vez, se transformarão em valor, na forma de audiência, engajamento, performance. Cada valor alimentando mercados apençados ao jogo, mudando detalhes, inserindo um produto nas chuteiras, fone de ouvidos no desembarque dos atletas, uma parece de anúncios atrás das entrevistas.
Talvez seja essa a grande ironia.
Vivemos repetindo que o futebol é “o mais importante entre as coisas menos importantes”.
Mas basta assistir a uma transmissão para perceber que ele já não ocupa sequer esse lugar. O centro da tela pertence aos patrocinadores, às bets, às bebidas, às “odds” atualizadas em tempo real. À próxima campanha publicitária. À marca estampada na manga, na placa de LED, no microfone do repórter, na análise pós-jogo, na própria fala do narrador, na análise do comentarista que não perde a oportunidade de elogioar o inelogiável (em todo jogo, certa BetTV repete a exaustão como “o jogo muda” na pausa para hidratação, afinal, é preciso justificar os milhões em patrocínio daqueles segundos valiosos).
O jogo continua acontecendo, só deixou de ser o protagonista. Há uma cena que resume tudo isso: imaginem que o gol da “Mão de Deus” acontecesse hoje (crianças, pesquisem as seguintes palavras-chave no google, “maradona”, “mão de deus”, “inglaterra”, “1986”). Não haveria indignação, nem fascínio, nem mito; o que veríamos seria apenas um comunicado do VAR, lance seria corrigido, fim da história.
No fundo, talvez seja isso que mais incomode.
O futebol sempre foi um espaço onde o imprevisível sobrevivia apesar de toda tentativa de organizá-lo. Hoje parece ocorrer o contrário: organiza-se tudo para que reste o mínimo possível de imprevisibilidade. Não basta vencer; é preciso vencer de maneira estatisticamente consistente. Não basta assistir; é preciso consumir. Não basta torcer; é preciso interagir, apostar, comentar, compartilhar, produzir dados sobre a própria paixão.
A Copa de 2026 talvez fique conhecida, no futuro, como o momento em que tudo isso se tornou impossível de ignorar. Não porque tenha inventado essa lógica, mas porque resolveu exibi-la sem qualquer pudor.
Ainda assim, suspeito que Maradona estivesse errado. Assumir quatro tempos de vinte e cinco minutos seriam, paradoxalmente, honestos. Seria admitir que o espetáculo pertence à publicidade. O que temos hoje é mais sofisticado, já que os noventa minutos permanecem exatamente onde sempre estiveram.
Quem parece ter desaparecido foi o futebol.
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