O Admirável (?) Velho-Mundo das Startups

De quando em quando (quase sempre!) o mundo dos negócios se deixa envolver por modismos. É interessante até o quão frequente executivos e empresas, que têm tamanha convicção de sua inteligência e racionalidade, adquirem soluções simplistas para problemas complexos. Poder-se-ia contar uma história cômica da gestão de empresas por meio dos ciclos de surgimento, auge e declínio de modelos de gestão que, em certo momento, foram elevados a, ou autoproclamados como, solução para todos os problemas de uma organização. Gestão da qualidade total, reengenharia, estratégia do oceano azul, balanced scorecard, liderança servidora, design thinking, metodologias ágeis, fit cultural, são muitos os exemplos de esquemas triviais que foram empacotados em palavras vazias, depois vendidos e adquiridos como se fossem soluções brilhantes.

Desde o advento da tecnologia da informação no ultimo quartel do século XX, uma profusão de novas empresas assumiu a dianteira do capitalismo global.

Pausa para um comentário lateral (que poderia ser uma nota de rodapé): utilizo aqui a palavra “advento” com certo sarcasmo, para refletir o maneirismo messiânico que nove entre dez articulistas utilizam para se referir a qualquer coisa ligada a tecnologia, como se internet, inteligência artificial generativa e celulares tivessem descido do Olimpo numa dádiva dos deuses. Voltando…

Nas últimas décadas, foi comum testemunar muitas pequenas companhias surgirem e, em poucos anos, galgarem rapidamente o status de negócio global e o valor de bilhões. Da mesma forma, muitas dessas startups brilharam com fulgor e se esvaíram com a mesma rapidez. Por exemplo, America Online já foi a empresa de internet mais valiosa do planeta.

É, eu sei, “America Ô’ o quê?” rs…

O entusiasmo com a novidade, mais o comportamento caótico de agentes de mercado, no contexto de economias financeirizadas que assiste a emersão de um setor econômico quase inteiramente novo, desconhecido, em grande parte hermético e em expansão acelerada, criaram um fenômeno interessante, as empresas super-novas: startups de crescimento rápido e vertiginoso, também chamadas de scale-ups. Do dia para noite, ideias fugazes e novos negócios esquisitos receberam aportes de investimento estratosféricos, valorizações fictícias aceleradas, deixando como subproduto um pequeno, mas ruidoso e arrogante, rastro de novos bilionários. A aparente facilidade e velocidade de enriquecimento não demorou a criar mais um daqueles mitos urbano-gerenciais, o do súbito bilionário; e no esteio, toda uma cultura devotada a, pretensamente, reproduzir as condições de seu surgimento.

Esse processo é representado por um termo que já foi mencionado aqui, startups, o novo santo graal da comunidade de negócios. Até mesmo se fala sobre uma tal cultura de startups, associada a juventude, impetuosidade, resiliência, trabalho árduo, capacidade de assumir riscos e, claro, a riquezas rápidas, vastas e ostentatórias. Inclusive problemas complexos e coletivos, como segurança pública, desigualdade social, corrupção ou diferenças territoriais entre países, parecem sujeitos a soluções “ágeis” e “disruptivas” no discurso ardoroso do universo das startups. Mas, alguém pode se perguntar, “afinal, é tudo isso mesmo?” Comecemos, porém, com uma pergunta mais básica…

O que são Startups?

A maneira mais simples e direta para dar um conceito para startups é compreendê-las como novos negócios. No fundo, é isso, uma newbie, uma empresa nascente. No meio de todo burburinho envolta das convenções festivas, palestras motivacionais, exércitos de influencers com seus minicursos, feiras de inovação e outras mostras de entusiasmo adolescente tardio, temos uma empresa que acabou de abrir, ou que está pretendendo iniciar, talvez apenas uma ideia. A suposição é de que essa novidade esteja associada também a um novo produto ou tecnologia, algo que não tenha sido feito antes e que, evidentemente, possa gerar lucros extraordinários.

Startups, Empreendedorismo & Inovação

Nesse sentido há uma aproximação clara entre startups e a noção de empreendedorismo. Segundo Schumpeter, as economias capitalistas apresentam comportamento cíclico de crescimento, estagnação, descenso e retomada. Para o economista austríaco, esse comportamento cíclico é explicado pelo surgimento de inovações tecnológicas que, durante sua disseminação pelos diversos mercados e atividades, produzem crescimento; quando então a nova tecnologia está inteiramente integrada à economia, os resultados desaceleram para, depois de atingir pontos ótimos e começar a apresentar exaustão e, em muitos casos, decrescimento. Nesse último momento, a retomada do crescimento se dará quando surgir uma nova técnica ou tecnologia que reinicie o ciclo.

Para o jovem Schumpeter (mais maduro, essa posição seria revista), apenas novas empresas teriam incentivo para inovar. Numa atividade econômica qualquer, as empresas já estabelecidas operariam extraindo ganhos decorrentes de poder de mercado, não precisando fazer grandes investimentos em inovação e mudanças. As firmas nascentes, se quisessem competir com empresas mais economicamente robustas, precisariam desenvolver produtos mais atrativos, ou técnicas de produção e gestão mais eficientes, de modo a fazer frente às grandes e conquistar espaço. Segundo Schumpeter, inovar não era apenas desejável, mas um imperativo de sobrevivência para startups, sem o que sofreriam a competição de preços e escala de empresas maiores e mais experientes.

O economista austríaco ainda observou que essas empresas nascentes seriam, na maior parte dos casos, resultado do esforço de um indivíduo, o empreendedor. Schumpeter descreve empreendedores como pessoas visionárias, com grande capacidade analítica de mercado, domínio de técnicas de gestão e inspiração motivacional de suas equipes de trabalho. Os empreendedores não seriam necessariamente inventores, mas sim aqueles que juntavam uma inovação técnica com capital (que tampouco precisa ser de sua propriedade, mas o qual deve ser capaz de captar), para delinear um novo negócio, produto ou serviço que permitisse contestar o equilíbrio de um setor econômico. Economistas usam o termo “contestar” para quando uma empresa menor, ou de fora, é capaz de entrar num mercado oligopolista; estudam inclusive os graus de contestação de um mercado, verificando barreiras à entrada e pontos de fragilidade de oferta e demanda.

Então, pode-se dizer que uma startup, nos termos de hoje, é resultado de um esforço empreendedor. Primeiro, existe uma inovação; pode ser uma nova técnica de gestão, um produto com atributos inovadores, um serviço que não existia antes, ou mesmo uma nova forma de utilizar uma tecnologia preexistente (existem empresas que inovam criando, outras inovam na aplicação das criações pré-existentes). Segundo, se ergue um indivíduo extraordinário, uma pessoa que teve a visão de negócio em torno daquela inovação, esse é o empreendedor. Terceiro, mas não menos importante, mesmo a mais promissora tecnologia precisa de que sejam realizados investimentos em seu aprimoramento, prototipagem, testes e lançamento em escala de comercialização, o que envolve custos diferidos (anteriores à atividade econômica); ou seja, deve haver capital disponível para investimento.

Os eventos, as feiras, as palestras motivacionais, os cursos, os Hubs, basicamente todo o universo das startups gira em da necessidade de colocar esses três elementos em contato. Incubadoras, sistemas nacionais de inovação, no Brasil o Sistema S (SESI, SENAI, SENAC), universidades de tecnologias, bancos de investimentos, todo esse aparato é desenhado para viabilizar a união entre inovação, empreendedor e capital, de modo a que surjam daí novas empresas com capacidade de se integrar competitivamente nos mercados e setores econômicos já estabelecidos.

“Cultura de Startup”

Desse emaranhado de relações aflora o que defensores chamam de “cultura de startups” carregando um conjunto de valores como inovação, autonomia, agilidade, resiliência e propósito claro. Trata-se de um aparato simbólico de pertencimento que se vale de signos específicos de distinção. Do indivíduo se espera um rol de qualidades como proatividade, entusiasmo, impetuosidade ou disposição para assumir riscos, comportamentos esperados inclusive do empreendedor ideal. A gestão, por sua vez, enfatiza soluções e métodos rápidos, comprometimento total, lealdade com a visão do líder, sacrifícios em nome do projeto. Tudo isso gira em torno de arquétipos bem discerníveis, como a adoção do setor de tecnologia e informática como referência e modelo (paradigma), a identificação de indivíduos — Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, entre outros — que funcionam como exemplos quase míticos a serem seguidos (totemização), a necessidade de um líder visionário que conduza a startup ao sucesso (messianismo) e verdades inquestionáveis, tais quais livre-iniciativa, desregulamentação, aceleracionismo, entre outras (dogmática).

Mais, o ambiente em torno da cultura de startup é cosmopolita. Na medida em que se toma como dado de contexto a integração de mercados em escala planetária, a assim chamada globalização (ainda que se trate de um conceito muitas vezes contestado, quase sempre empregado para simplificar um processo social assimétrico e hierarquizado), persegue-se uma lógica de pertencimento competitivo no plano internacional, no mercado externo que se apresenta, ao mesmo tempo, como incerteza e oportunidades. Isso alimenta desde uma sensação de elevada aspiração para além do local e do nacional, como também se verte em percepção de que se enfrenta uma incrementada e cada vez mais qualificada competição, em mudança contínua. Isso está relacionado com o imperativo de se manter atenção constante e flexibilidade planejada, já que os “mercados” são percebidos como voláteis e implacáveis. O mundo das startups parece estar em revolução ininterrupta, as pessoas em estado perene de prontidão para o combate, o palco é a aldeia global do capitalismo.

Tais dispositivos da cultura de startups parecem funcionar como um aparato compartilhado de integração coletiva, premiando comportamentos alinhados, coagindo escolhas segundo uma ordem de valores preestabelecida, julgando dignos e indignos de pertencimento, bem como punindo desviantes. Consequentemente, os arquétipos opostos são, por sua vez, evocados como signos ultrapassados, quase antagonistas, ou ao menos como resquícios de uma ordem antiga que precisa ser superada. Temperança, cautela, tecnologias analógicas, análises e soluções estruturais, esses e outros atributos funcionam como exemplos de atitudes a priori equivocadas, menos eficientes, arcaicas. Mesmo que não o sejam, mesmo que destas dependa até mesmo o sucesso tão perseguido pelas startups.

A Pretensa Novidade

O entusiasmo — ou, para usar uma gíria da moda, o fuzz — sobre startups parece indicar algo novo, com frescor, juventude. E é mesmo vendido dessa forma. Numa escolha por uma sociedade competitiva e em estranhamento com as instituições políticas herdadas de outros tempos, a cultura de startups funciona como panaceia para os males econômicos e sociais; algo como um empreendedorismo 2.0. Mas, o que há de novo na novidade?

A princípio podemos dizer, não sem um certo grau de ousadia, que pouca coisa.

Primeiro, porque empresas novas têm surgido desde que o capitalismo existe. Toda empresa foi uma startup um dia. Ford, IBM, Bayern, mais recentemente Microsoft e Apple, mais recentemente ainda Google, Facebook e Amazon. Todas as gigantes de hoje começaram em um ponto da história pequenas, foram ideias, visões de alguém. Empresas surgem, inovam ou não, persistem ou não, desde sempre (ou melhor, desde que o capitalismo como o conhecemos surgiu). Se pode afirmar que startups, novos negócios, são o cerne do modo de produção capitalista e da sociedade burguesa desde o século XVIII. Mais, muitas dessas novas empresas surgiram em jantares de cavalheiros, sociedades iniciáticas e fraternidades burguesas como Maçonaria, Rotary ou Lions, ou seja, em eventos de liason que funcionavam como espaços para troca de impressões e realização de negócios.

Também, em segundo lugar, porque a percepção de que novas empresas precisam inovar para sobreviver também não é nova. O livro Teoria do Desenvolvimento Econômico de Josef Alois Schumpeter é da década de 1930. E não se trata de um trabalho meramente teórico que, posteriormente, tenha sido aplicado. Schumpeter estava analisando seu tempo, observando o comportamento de empresas nascentes de sua época, muito durante o contexto da crise de 1929 e diante das alternativas econômicas e sociais à disposição. Sua percepção de associar ciclos de crescimento econômico à ciclos tecnológicos se deu a partir de dados empíricos.

A ideia de proporcionar ambientes que oportunizem o encontro entre inovação, capital e empreendedores tampouco é nova. Friedrich Liszt, no início do século XIX, já falava em proteger a indústria nascente dos países para que se fortalecessem antes de enfrentar a competição internacional. Richard Nelson já trata de sistemas nacionais de inovação como alternativa para suporte de um desenvolvimento competitivo, para fora (visando o comércio exterior, globalizado) na década de 1970. Também um estudo empírico, com formulação teórica. Na década de 1980 Michael Porter já falava em vantagens competitivas das nações como decorrentes de estruturas sociais para incentivo de inovação, empresas de nicho e competição internacional.

Até mesmo a máxima valorativa, a pretensão de mudar o mundo, é semelhante à do entusiasmo oitocentista com a razão, a empresa e o capitalismo liberal, com uma sutil diferença. No final do século XIX a humanidade projetava um futuro melhor, livre guerras, doenças e desabastecimento, sob a promessa de empreendedores, das tecnologias e engenharia modernas, dos sistemas sociais racionais. A esperança do capitalismo liberal era generalizada, genuína, racional; o século XX tratou de esmagá-la. A esperança da cultura de startups, podemos dizer, é desconectada de uma realidade na qual se observa acelerada concentração de riqueza, abandono coletivo e desigualdade; por isso mesmo uma esperança cínica, frágil, meramente ideológica. Não será esmagada pelos fatos, porque trata-se de mero dispositivo ideológico. A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa, já dizia Karl Marx.

A cultura de startups, jovial, entusiástica, está fundada em princípios arcaicos que só são percebidos como novidade graças à ignorância história e a soberba da juventude de alguns de seus frequentadores. Se trata apenas do passado recontado, como se dizê-lo diferente fosse o suficiente para resultar em algo novo. A experiência do Google é exemplar dessa contradição: quem não se lembra de seu lema “don’t be evil”? Existiu na história uma empresa mais perversa que essa, aceleracionista em relação a tecnologias com potencial destrutivo, cujo modelo de negócio é o gerenciamento de humores em escala global, que oferece plataformas educacionais de comunicação ditas “gratuitas” para, assim, monopolizar enormes conjuntos de dados, operar ingerência sobre a vida de bilhões, enquanto contribui para financiar a internacional fascista pelo mundo?

Outras questões podem ser derivadas de uma crítica dessa tal cultura de startups, como a romantização do trabalho interminável, o princípio de fingir competência até que se consiga entregar, suas palavras-significantes mais comuns, como ecossistema (de inovação, de empreendedorismo, de política), unicórnios, hub, investidores-anjo, pensar fora da caixa. Cada dimensão encerrando em si aspectos, por assim dizer, problemáticos que a maquiagem ideológica por detrás do termo procura esconder.

Mas, por ora, deixemos esses temas em aberto. Voltaremos a isso.


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