Da Ditadura da Estultícia à beira do Abismo, e além…

Estamos, sim, numa ditadura da estultícia.[1]

No rescaldo do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil em 2026, reconheçamos: nós, do assim chamado campo progressista, fomos surpreendidos. Não pela perfídia da direita, que tem se mostrado coerente em seu compromisso brega-gore-cleptocrático, mas pela forma como a população brasileira abraçou cegamente um projeto explícito de autodestruição. Nas horas seguintes à confirmação dos resultados nas urnas, entre o atônito silêncio, as esperanças vazias e os (chatos, intermináveis, vazios de conteúdo e vira-latas) clamores por autocrítica, multiplicaram-se, nos grupos de esquerda, os chamados a “tentar entender o povo”, “não adjetivar negativamente a escolha coletiva” e “não ridicularizar arrogantemente as pessoas”.

Discordo de tudo isso. O povo votou cego, sim: emburrecido, incapaz de compreender plenamente o que estava em jogo e, em larga medida, contra os próprios interesses. E esse povo pode vir a sofrer por anos, talvez décadas, por causa dessa escolha ruim. Estamos em direção a uma plena ditadura da estultícia, não custa repetir. As pessoas foram convencidas de que não precisam estudar, de que não devem confiar em quem estuda, de que sua opinião vale tanto quanto os fatos. É a vitória do medíocre, do superficial, do imediatista e do alienado; é a força da opinião errada e de um individualismo tão extremo que se expõe ao próprio risco. E tudo isso não foi mero acaso.

A direita se mostrou muito hábil em, primeiro, ressignificar radicalmente a arena do debate público, deslocando-a para um espaço privado no qual as regras de circulação, reverberação e validação da informação são determinadas por empresas que controlam as redes sociais digitais. Segundo, mostrou-se muito exitosa em corroer a qualidade do debate público por meio de pautas constrangedoramente débeis, num nível de ignorância tão rasteiro que se disseminou uma aversão ao conhecimento. Nesse contexto, ideias simples e grosseiras, mesmo falsas, tornaram-se mais facilmente assimiláveis do que as verdades inconvenientes e contraintuitivas do pensamento crítico.

O contexto é o da crise sistêmica de acumulação. O Capital, diante das ameaças que se impõem à reprodução ampliada, volta-se para a radicalização dos mecanismos de transferência de valor. Na prática, isso aparece como perda de direitos, trabalho dito precário, Estado ausente, necropolítica e uma espécie de antiempatia gore. Fascismo, trumpismo e neo-integralismo dependente — como prefiro classificar o bolsonarismo — são “apenas” métodos: formas políticas às quais o capital pode recorrer quando suas condições de reprodução se encontram sob pressão. Não teria sido possível criar as condições para a ditadura da ignorância sem um massivo investimento, em escala planetária e com diferentes graus de coordenação internacional, por parte de frações do capital. O ressurgimento da extrema-direita não é mero acidente nem deriva simplesmente de erros estratégicos da esquerda; trata-se também de uma reação política de empresários e rentistas interessada em aprofundar o controle sobre os mecanismos de produção e distribuição de valor.

A igreja cumpre um papel, sim. Na medida em que o capital força as pessoas em direção à pobreza, a lógica é que se produzam, entre as frações trabalhadoras, espaços de ajuda comunitária e solidariedade. No passado, esses espaços foram instrumentalizados pela esquerda e mobilizados para formar partidos e movimentos sociais. Dessa vez, a direita se antecipou e reordenou uma institucionalidade antes distante, transcendental, para ocupar esse vazio com uma estratégia eficiente de acolhimento e controle. Segmentos do campo neopentecostal tornaram-se ferramentas para preencher espaços de solidariedade com ideologias individualistas, teologias da prosperidade e do domínio. Ali, em determinados contextos, corroeram formas de solidariedade coletiva, substituindo-as por um caldo protofascista baseado na fé e no ódio: um ódio travestido, sub-reptício, subjacente.

A esquerda enfrentou um contexto profundamente desfavorável. Conluio de imprensa e mídia, redes sociais instrumentalizadas, apoio estrangeiro, ação coordenada internacionalmente para a captura do Estado pela extrema-direita, igreja golpista e violenta. TODOS sabíamos de antemão, diga-se de passagem. Mas não tínhamos, não temos e talvez nunca tenhamos os meios de equilíbrio. Não possuímos os recursos, nem os veículos, nem a expertise para fazer frente a isso. As tais odds estavam amplamente desfavoráveis. Apesar disso, cultivamos a esperança, fizemos uma campanha bonita, com música boa, atos enormes, leal e emocionante. E perdemos.

O que vem pela frente, como diria Ailton Krenak, não tem sofisticação nenhuma: não passa da fome imparável do capital em consumir tudo. O que quer a extrema-direita? Eliminar a oposição, exterminar a resistência e favorecer os ultrabilionários. Diante da iminente crise ambiental, reforço o que já escrevi aqui antes: a lógica do capital aponta para uma administração cada vez mais brutal da vida e da morte como estratégia de sobrevivência orquestrada em favor dos interesses da fração dominante do capitalismo global. O povo pode acabar escolhido para morrer em nome da continuidade de seu modo de vida.

Nisso, o Brasil da década de 1970 pode muito bem servir de modelo para o mundo: superexploração e abandono estatal.[2] Volto a repetir, em nome da ênfase: necropolítica. Ulrich Beck formulou o arguto conceito de “brasilianização do Ocidente” como um desdobramento indigesto da utopia neoliberal — caracterizada pela disseminação, nas sociedades ocidentais, de formas de trabalho precárias, descontínuas e informais. Essas tendencias aparecem exacerbadas sob a égide da extrema direita, numa pauta de fim-de-mundo: deixar-nos morrer de fome, doença e exaustão.[3]


[1] A noção de “ditadura” não é utilizada nessa reflexão com seu sentido jurídico-institucional convencional. A palavra aqui tem a função de designar uma hegemonia social da ignorância, da superficialidade e da opinião desacoplada dos fatos. “Estultícia” não aparece aqui como mera característica psicológica individual, mas como resultado político de determinadas condições materiais e institucionais que acometem uma parcela significativa da população. No entanto, essa relativização da noção de ditadura que faço não descarta a possibilidade de que, sim, involuamos para uma ditadura escancarada.

[2] Superexploração é um conceito típico da teoria da dependência de corte marxista para caracterizar a deterioração das condições mínimas de reprodução da força de trabalho — constrangimento remuneratório, prolongamento da jornada, intensificação do trabalho, entre outros — que contribuiu para a transferência de valor e para a apropriação, no centro capitalista, de parte do excedente produzido na periferia, favorecendo as condições materiais que sustentaram a elevação do padrão de vida da classe trabalhadora em países centrais, notadamente na Europa, no Japão e nos EUA. Essa dinâmica foi essencial para os Trinta Anos Gloriosos que sucederam a Segunda Guerra Mundial, servindo como uma das bases materiais sobre as quais se ergueram as experiências de Estado de Bem-Estar Social.

[3] A ascensão contemporânea da extrema-direita não resulta de erros da esquerda ou de escolhas individuais isoladas, nem pode ser atribuída a nenhum outro grupo que não à própria direita histórica. É resultado, sim, de uma transformação estrutural do capitalismo em crise, que combina precarização material, captura da esfera pública, desinformação, instrumentalização das redes sociais e ocupação de espaços comunitários pela extrema-direita. Mas também resultou de decisões conscientes de um punhado de atores políticos muito claramente identificáveis.


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