ou, Discurso Sobre o Imperativo do Fim das Religiões
Hoje no Brasil, no mundo quiçá, vivemos um daqueles momentos cruciais da história. Findo o primeiro quarto do século 21, o projeto moderno de uma sociedade pautada pela razão instrumental parece inevitavelmente falido, anacrônico até. Seja pelo justo esgarçamento moral e lógico das grandes narrativas totalizantes modernas, ou devido à irracionalidade inerente ao modo de produção capitalista que caminha para se consolidar em uma configuração de acumulação gore e extrema intransigência política, o fato é que a razão instrumental e a ciência positiva parecem incapazes de promover o surgimento de coletividades plenas, eficazes, justas e equilibradas. A promessa da modernidade foi, de certa forma, quebrada; e, muito embora o defunto ainda caminhe em plena luz do dia, alheio ao fato de sua morte, nada parece indicar que aquele compromisso venha a ser revivido.
No entanto, no lugar dessa crise estrutural induzir a emersão de alternativas progressistas, o que vimos a partir de meados do século passado foi um movimento retrógrado encabeçado pelo fortalecimento de denominações religiosas ultrafundamentalistas dentro e ao redor das grandes religiões organizadas. Igrejas neopentencostais se espalham pelo mundo, resultado do esforço evangelista conservador norte-americano, e se multiplicam em uma miríade de denominações. Frações islâmicas radicais eclodiram em diversos países, amealhando seguidores e simpatizantes com discurso anti-imperialista (justo) entremeado a um código moral medieval. Mesmo a Igreja Católica, que ousou ensaiar aberturas e flexibilizações (tímidas, mas ainda assim), não deixou de acolher ordens retrógradas e ultraconservadoras, tais quais Opus Dei, Arautos do Evangelho e a Renovação Carismática Católica.
Como que para reafirmar o arguto aforismo de Francisco Goya, à medida em que a razão adormece, essas aberrações ganham vida, voz, se organizam em projetos apavorantes.
No Brasil, as igrejas neopentecostais foram claramente capturadas pelo crime organizado. Nos EUA, o neopentecostal é sinônimo de supremacismo branco, fascismo e ódio, tendo servido abertamente como justificativa para uma estrutura de violência sem precedentes nas sociedades democráticas. As muitas interpretações extremistas do Al Quran são utilizadas para justificar crimes contra a humanidade sob a desculpa cínica da lei Sharia, no Iran, Afeganistão, Paquistão. Enquanto isso, o Estado de Israel emprega o judaísmo como base de (falsa) legitimidade para funcionar como uma organização terrorista em busca de genocídio do povo palestino. Para cada uma dessas estruturas de agressão coletiva, é possível apensar uma miríade de violações abjetas por padres, pastores, rabinos e imãs, cujas descrições escabrosas não serão aqui reproduzidas devido sua sordidez e repugnância.
A verdade é que não é possível uma convivência pacífica com as religiões organizadas. O mero ateísmo não se mostra suficiente.
O ateísmo é uma postura idiossincrática. Refere-se a ordem de valores e convicções que uma pessoa assume para si, uma certeza da inexistência de deus. Para tanto, concorre a ausência de provas, evidências, sequer indícios da materialidade objetiva de divindades ou entidades sobrenaturais quaisquer. Nesse sentido, o ateísmo não se formula como uma crença, mas como reconhecimento do vazio intelectual ao redor das crenças. Mas o ateísmo é uma postura para si, acerca de como alguém organiza sua compreensão de mundo. E é uma formulação em grande parte negativa, do que não é, do que não existe. Nesse sentido, trata-se de uma condição necessária de esclarecimento, haja vista o fato evidente de que não existem motivos sequer frágeis para se considerar a existência de deus, mas com limitados efeitos críticos para o coletivo. O ateísmo não engendra uma ação social transformadora.
Por outro lado, denominações religiosas são dispositivos sociais, alienam as pessoas da coletividade: (i) ao separar os que “estão no mundo” dos “salvos” que fazem parte da igreja; (ii) ao classificar o humanismo como manifestação do mal e, portanto, inimigo a ser derrotado; (iii) ao criar sociedades paralelas cujo principal requisito de pertencimento são a obediência cega a indivíduos ditos “escolhidos”; assim como também (iv) porque em muitos dos seus cultos e eventos procura contestar a ciência, vacinas, procedimentos médicos, teorias sociais e psicológicas. Obviamente, clérigos, pastores, imãs, rabinos têm plena consciência do potencial que a ciência e o raciocínio lógico possuem para despertar consciência crítica e expor a irracionalidade e hipocrisia na própria igreja. Existe uma disputa, em grande parte unilateral, da religião com a ciência sobre o monopólio da verdade.
Assim, as igrejas amealham influência e projeção social. A partir daí, muitas utilizam, exploram, vampirizam essa autoridade para lavar dinheiro de atividades ilícitas, para projetar pautas conservadoras com o objetivo de se conservar no poder e estender seu controle sobre cada vez mais indivíduos, bem como para silenciar vozes críticas e evitar que seus crimes sejam expostos, julgados e condenados. Por isso adentram na política, visando tentar corroer o Estado por dentro, perseguir jornalistas, cientistas e instituições que tenham o potencial de promover esclarecimento e liberdade da população. Não por acaso, o braço político tradicional das religiões organizadas quase sempre funciona como uma modalidade de fascismo. Por meio da política, tentam impor seus princípios religiosos e convicções à toda a população, de maneira indiscriminada.
Isso aparece em temas como arbítrio sobre o corpo alheio (aborto, eutanásia, acesso a procedimentos médicos, ou mesmo restrições a exposição dos cabelos), regulação moral da ciência (contra pesquisas com células-tronco, clonagem, terapia genética, marijuana, entre outras), mas sobretudo em pautas caras às elites econômicas estabelecidas. No Brasil, é interessante como as mesmas igrejas que dizem pregar amor reúnem líderes a favor da redução da maioridade penal, defendem a comercialização livre e irrestrita de armas de fogo, endossam práticas policiais violentas, como tortura, assassinato e assédio, bem como tem assumido a defesa de uso indiscriminado de agrotóxicos, expropriação das terras indígenas e aumento da exploração do trabalho. Nenhuma dessas pautas aparecem em livros sagrados, mas dizem respeito aos interesses dos ricos, empresários e fazendeiros.
Na medida em que toda religião se fundamenta em preceitos ditos totalizantes e universais, os quais excluem necessariamente quaisquer outras opiniões e verdades, qualquer fé carrega consigo o potencial para uma captura fascista, intolerante e violenta das instituições sociais. Basta perceber que a religiosidade, qualquer religiosidade, divide as pessoas entre fiéis e infiéis, muitas delas utilizando esse atributo para até mesmo negar humanidade das pessoas. Por exemplo, a Torá trata os descendentes da linhagem legítima de Abraão como o “povo escolhido”; Jeová entrega, por meio de Moisés, dez mandamentos, dentre os quais “não matarás” (êxodo 20:13) que proíbe o homicídio. Pois bem, o mesmo “deus”, algumas páginas adiante, ordena que “povo escolhido” invada cidades e assassine todos os seres viventes, homens, mulheres, crianças e animais: não eram humanos.
As religiões são um mal coletivo. Representam forças anti-civilizatórias, retrógradas, arcaizantes. Ao se fundamentar na alienação das pessoas em nome de preceitos ditos universais e totalizantes, todas as religiões carregam consigo o potencial autoritário e violento. Qualquer religião tende a operar como um entrave civilizatório. Religiões projetam no presente uma sombra de certezas vindas de um passado no qual a maturidade intelectual da humanidade ainda engatinhava (talvez isso possa ser dito do tempo presente, dada nossa incapacidade de socializar formação, consciência e acesso a benefícios materiais da modernidade, mas esse é o tema de para uma outra discussão). Por isso, as religiões carregam preconceitos, desigualdades, apelos à violência, práticas de assédio velado (quando não explícito) e uso do medo como mecanismo manipulatório.
Não basta sermos ateus. Não é possível supor que a civilização possa incluir de maneira funcional essas estruturas irracionais de relação sem correr o risco de solapar seus próprios fundamentos. É necessário que haja uma guinada antiteísta. Dito de outra forma, mais direta e objetiva, a sociedade precisa trabalhar para extinguir as religiões organizadas. Urge que a sociedade trabalhe para extinguir as religiões organizadas. Faz-se necessário expurgar a irracionalidade da fé, desidratar os argumentos anti-humanistas disseminados pelas religiões organizadas, enfrentar como se fossem problemas de saúde pública as condições emocionais, intelectuais e sociais que levam uma pessoa procurar uma igreja. Porque de fato esses são sérios problemas de saúde pública, com implicações não desprezíveis sobre o já frágil equilíbrio das sociedades. Se as religiões não forem extintas, elas podem muito bem extinguir a humanidade.
Descubra mais sobre Administração Crítica
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.