É preciso encarar essa verdade de frente: não adianta argumentar com bolsonaristas. De nada serve mostrar estatísticas, fotos, vídeos, nada que prove que o “mito” está mentindo. Tampouco é útil escancarar o quanto ele é asqueroso, mal-educado, agressivo, racista ou preconceituoso. Muito menos eficiente é expor a corrupção, a imoralidade, o enriquecimento ilícito, escancarar suas ligações com a milícia, com assassinos e contraventores.
Nada disso é capaz de penetrar numa mente bolsonarista.
A causa dessa impermeabilidade à razão está nos porquês profundos que fazem alguém seguir Bolsonaro. Ele caiu nas graças das pessoas não por suas virtudes, mas devido a seus defeitos mais abjetos. Eles gostam quando ele rouba pra se dar bem. Amam quando ele agride alguém, um homossexual, um quilombola, uma mulher, uma Primeira-Dama estrangeira. Bolsonaristas se inflamam em êxtase quando assistem um dos bolsonaro mentir descaradamente na internet. Sim, eles sabem que o bozó e sua claque estão mentindo; tem perfeita consciência de que Nikolas só é capaz de proferir falsidades.
Quando Bolsonaro e seu círculo agem como os canalhas histriônicos e abusivos que são; quando falam frases sem concordância, sentido ou sequer palavras inteligíveis; quando ameaçam matar indígenas, estuprar mulheres ou levar a cabo atentados à bomba; quando proferem xingamentos, zombam do cristianismo que dizem seguir e agem contra a ciência e o conhecimento, muitas pessoas se identificam.
Nesse sentido, o Bolsonaro não tem uma massa de manobra, o manobrado é ele. Existe um público que quer exatamente isso, alguém que tenha coragem de fazer as coisas hediondas que esse mesmo público sempre fez escondido e sonhou em fazer às claras. Ele se propôs a esse papel, vestiu a carapuça em público, mas na verdade não é nada além de um espelho.
Dizem que ele é “sincero”, não porque o seja de fato, mas porque ele arrota o que seus seguidores querem ouvir e repetir. Não é transparente, é descarado, sem-vergonha.
Essa é a tragédia do Brasil: existem hoje mais ou menos 40 milhões de eleitores que querem ignorância, breguice, tumulto e violência. Essas pessoas sonham com a volta da tortura, aspiram por uma sociedade baseada em exploração, roubo e escravidão. Querem ter o direito de humilhar e licença para matar. Em suma, eles anseiam pelo mal, infortúnio, pobreza e dor dos outros. 40 milhões de indivíduos eleitoralmente adultos no Brasil anseiam por um país em situação de selvageria, bestialidade, atraso, de modo que seus fetiches repugnantes possam ser normalizados.
O Bolsonaro não é a doença, mas sim o sintoma de um país na corda bamba entre a civilização e a barbárie. Como um câncer, ele é o tumor à mostra, mas, no fundo, o paciente está em metástase. O grande mérito do clã Bolsonaro — apesar de reunir uma corja de intelecto desprezível e pretensões mesquinhas — está em ter percebido isso e apostado que poderiam ganhar (muito) se o circo pegasse fogo.
O bolsonarismo não opera no plano da razão, mas no nível do intestino grosso.
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