Crítica da Ideia de Meritocracia

Meritocracia é uma palavra da moda. Seja no Governo, ou no mundo corporativo, diz-se em alto e bom tom que a gestão meritocrática é uma das principais metas a serem perseguidas. Considerada característica fundamental de uma administração moderna, racional, a meritocracia é posta quase como uma divindade, inefável em sua temperança e incorruptibilidade. Sem dúvida, essa é uma premissa falaciosa. O construto ideal em torno da gestão sob o manto da meritocracia tem funções muito mais mundanas: servir a interesses por meio de manipulações subreptícias de processos em termos ideológicos, políticos e materiais. Vamos a isso?

A ideia de meritocracia sugere um tipo de gestão (ou governança, como o queiram) pautada pela performance. O julgamento de valor de contribuição de um indivíduo, equipe ou organização, num sistema meritocrático, não levaria em conta o que a pessoa é, pensa ou almeja, mas sim o que ela produz. Dessa maneira, pessoas seriam premiadas por mérito, remuneradas por sua produtividade e, claro, promovidas a cargos de liderança graças a seus atributos para o desenvolvimento do trabalho. Isso é considerado justo, contra o quê é quase anátema se posicionar.

Estamos diante de uma pista…

Um sistema meritocrático fundamentado no julgamento do resultado, da produção em seus aspectos qualitativos ou quantitativos, supõe que os virtuais contendores partam de uma base idêntica. Não é o caso. Em verdade, as disparidades sociais se fazem presentes, mesmo que ali no local da competição seja oferecida uma estrutura de trabalho equivalente. Isto pois os efeitos existenciais e contextuais das desigualdades sociais não podem ser apagados da história das pessoas e continuam a influenciar o resultado do trabalho.

Disparidades existenciais são aquelas decorrentes das condições de nascimento, mas cujos efeitos são construídos socialmente pelas estruturas de opressão. Nas sociedades ocidentais capitalistas, como a brasileira, persistem arcabouços racistas que constrangem a vida coletiva das comunidades não brancas, seja como vieses subjacentes de julgamento e preconceito, ou por maior exposição aos riscos de violência social e institucional. Da mesma forma, diferenças de gênero e sexualidade carregam consigo pechas infames que, além de distorcer a percepção da qualidade do trabalho realizado por mulheres, homossexuais etc., contribuem para uma existência mais estressante, insegura e desafiadora. Sensações intrínsecas que não se podem ser deixadas de lado no trabalho e, claro, cobram tributos psicológicos, simbólicos e concretos.

As dimensões contextuais das disparidades são igualmente importantes. Crescer numa família de maior poder aquisitivo, exposição à cultura letrada e a bens culturais diversificados e em maior quantidade, desenvolve mecanismos lógicos e cognitivos que fazem falta tanto no exercício do trabalho, como educação formal. Esta, por sua vez, é imprescindível. Enquanto que as classes mais abastadas treinam seus herdeiros em instituições hipercompetitivas, as classes menos favorecidas sequer têm opção de escolha. Tudo isso tornado ainda mais complexo pelo fato de que as diferenças de estrutura material — transporte, conforto doméstico, disponibilidade de alimento, entre outros — também engendram performances diferenciadas. Sem mencionar o papel da formação de rede de contatos no sucesso profissional, resultando em oportunidades totalmente desiguais.

Chegando no trabalho, indivíduos com trajetórias opostas, mesmo se colocados lado a lado em condições iguais de trabalho, inevitavelmente trarão consigo cargas de vida muito diferentes, que impactarão em suas performances.

Além disso, o princípio meritocrático supõe uma métrica justa e isenta de mensuração. Nem mesmo isso é possível de um ponto de vista objetivo. Em primeiro lugar, os indicadores normalmente carregam consigo a opinião implícita de uma parcela social dominante sobre o que deve ser considerada uma boa performance. Ênfase: do ponto de vista da classe dominante. Assim, as próprias métricas de avaliação são talhadas — intencionalmente ou não — para privilegiar quem se adequa a priori a uma visão de mundo da classe dominante. Em segundo lugar, as dimensões observadas, como comportamento, estética, criatividade, proatividade, são aquelas mais observáveis em histórias de vida com mais acesso, não menos; os atributos típicos das classes subalternas, sua música, seu jeito de andar e falar, são rotineiramente considerados inferiores e vulgares.

Por isso, não se pode dizer que a meritocracia sequer seja possível. Ou melhor, num exercício normativista, seria possível se, e somente se, fôssemos capazes de equacionar as disparidades sociais existenciais e contextuais.

Na verdade, pelo contrário, a ideia de meritocracia exerce funções com o objetivo da continuidade (talvez recrudescimento) das disparidades sociais. Primeiramente, tenta esconder essas disparidades por meio da sugestão falaciosa de que os indivíduos seriam avaliados de forma justa, tentando assim impedir contestações sobre os resultados na origem. Essa é a função ideológica, no nível do controle mental contra aqueles em posições subalternas. Em segundo lugar, o arcabouço meritocrático (de fachada) assegura a posição social da classe dominante ao perpetuar seus herdeiros nas instâncias de poder. Essa função é política.

Ademais, uma terceira função da meritocracia é a de identificar, dentre as classes subalternas, aqueles indivíduos mais capazes para os cooptar e engajar no exercício de atividades funcionais à manutenção dos privilégios das classes opressoras. Por isso mesmo, faz parte do arcabouço meritocrático a assimilação de trejeitos comportamentais sem função objetiva — como norma culta de linguagem, gosto por bens materiais de distinção, ou formas elegantes de vestuário, entre outros —, incitando as pessoas de origem mais humilde a emular o mais próximo possível o modo de vida dominante. Essa é a função material da ideia de meritocracia.

Pode-se afirmar, em suma, que ideologia, política e economia são as raízes da ideia de meritocracia, a qual, na novilíngua capitalista, significa o exato oposto do que dizem ser.


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