O falso valor da administração acrítica* 

Em meio aos debates desde a academia até os espaços de deliberação e decisão, tomando a palavra com voz alterada e repleta de pretensa razão, se encontra algo muito além (ou aquém) do conhecimento: opiniões e interesses particulares (mesquinhos até) que se mostram mascaradas como conhecimento, muitas vezes se autoproclamando universal. Há muito de falsidade, pseudo-cientificidade, engano na opinião que tem que ser separada, como joio, dos saberes que verdadeiramente importam, do conhecimento concreto[1], isto sob pena da ciência, na qual se inclui a administração, se perder nos corredores labirínticos da ignorância.

É pacífica a afirmação de que a sociedade contemporânea, assim como qualquer outra na história, se estrutura num caldo de interesses diversos e conflitantes – tanto o é, que discursos contraditórios emergem de cada canto, sustentando pretensas verdades absolutas que não passam de vieses de opinião. Existem organizações cuja única função é disseminar uma maneira particular de interpretar o mundo, mantidas por indivíduos ou grupos cujos interesses perpassam por estas assertivas. Este é o conceito de Think Tank, um grupo de pesquisadores, ideólogos e articulistas para os quais o principal papel não é encontrar a verdade, mas convencer pessoas sobre as propostas e idéias de seus chefes.

Quem nunca viu um cartaz no mural da faculdade anunciando um concurso de monografias, apresentando prêmios para os primeiros lugares, como bolsas e mesmo somas em dinheiro? Eu mesmo vi um que assim dizia “tema: defesa do livre-mercado”.

O interessante é que o referido concurso não desejava receber monografias sobre a pesquisa e a possibilidade de existência do livre-mercado. Não importava se a pesquisa era válida ou não, para ganhar, tinha que defender o livre-mercado; ou melhor, para participar era preciso tomar como pressuposto inicial que o livre-mercado é bom, e precisa ser defendido.

Pausa para pergunta, se é bom, para que precisa de defesa?

Mais interessante ainda, aquele think tank não estava preocupado em promover pesquisas que acrescentassem conhecimentos válidos, ou que encontrassem soluções para problemas específicos em nosso país. Não pedia por ciência, esperava apenas promover textos que defendessem o que acreditava ser certo, o tal do livre-mercado.

Se as pesquisas indicassem que o livre-mercado não é bom, simplesmente seriam descartadas, por mais convincentes que fossem seus dados e argumentos. Assim é o think tank, um defensor de algo. Não precisa ser racional, não necessita ser científico, basta saber que sua principal função é disseminar uma idéia, uma crença.

Contudo, foi só na atualidade que estes grupos começaram a se revestir de argumentações científicas. Isto por que o nosso mundo confia na ciência, através dela alcançamos inúmeras conquistas e chegamos a respostas e confortos que nenhuma sociedade precedente dispôs. A ciência foi erguida ao status de divindade, donde podem surgir todas as respostas, a quem tudo deve ser perguntado. A própria imagem de um cientista, vestido em um jaleco branco e usando óculos, para nós é um arquétipo de razão, um vislumbre do que é certo, ético, do conhecimento encarnado. Na contemporaneidade a linguagem do saber é a fala da ciência.

O que fazem os think tanks? Se cercam de “cientistas” e “pesquisadores” que comprovem o que pensam; enchem seus textos de argumentos “científicos” e promovem “ciência” – desde que esta defenda suas idéias preconcebidas. Eles se apropriam da instituição da ciência apenas para disseminar as opiniões que atendem seus interesses.

Vejamos novamente o exemplo do liberalismo. São inúmeras organizações pseudocientíficas pró-liberalismo, como o Instituto Fernand Braudel no Brasil (um insulto a este historiador, diga-se de passagem), o Instituto Liberal no RJ ou o Institute of Economic Affairs de Londres. Hoje estes grupos promovem universidades, pesquisas, debates acadêmicos, se revestem de ciência. Mas, no passado, quando a forma principal do saber das sociedades ocidentais não era a ciência, o liberalismo não usava tanto dela.

Voltando alguns séculos atrás, quando os ramos científicos não estavam desenvolvidos como hoje e nem gozavam do status que hoje mantém, a principal fonte de conhecimento era a religiosidade: o saber era revelado através da escritura sagrada e de sua interpretação por homens consagrados a Deus, no ocidente tudo isto era encarnado na Igreja Católica Apostólica Romana. No entanto, com as mudanças nas esferas de produção e distribuição de riquezas conhecidas historicamente como “a revolução industrial”, as facções liberais da burguesia capitalista, grupos que mais ganhavm poder com tais transformações, começaram a demandar justificativas sociais para defender seus interesses. Como demonstra Max Weber, ele mesmo um pensador burguês, parcelas da burguesia nascente se articularam para viabilizar a reforma protestante de Calvino e de Lutero com fins de justificar suas opiniões, buscavam liberdade para acumular, para negociar a juros; desejavam encontrar na autoridade sapiencial mais aceita da época, a religiosidade, e em seu livro sagrado, a bíblia, os argumentos para suas idéias.

A defesa do livre-mercado, que hoje se pauta na “ciência”, dantes se pautara na reinterpretação da bíblia, no conhecimento revelado por Deus. Mudaram não por que uma fonte seja mais válida do que a outra – para os liberais isto não interessa – o fizeram apenas por que as pessoas hoje se convencem de uma maneira diferente dantes. Seu compromisso não é com a verdade, mas consigo mesmo, com seus interesses, com o que podem ganhar se as pessoas certas forem convencidas daquilo que pensam.

Lutar por suas demandas não é algo ilegítimo. Liberais, aristocratas, comerciantes, agricultores, financistas, têm o direito de defender seus pontos de vista e as condições de reprodução de seus grupos, tanto como você ou seu vizinho. E ainda, o conhecimento produzido nas cercanias de um think tank não é inválido, só precisa ser considerado criticamente dentro do espectro de seus pressupostos.

Convém afirmar, porém, que seria tanto mais honesto se tais pessoas delimitassem o que é interesse e o que é verdadeiramente conhecimento naquilo que afirmam. Mas isto não é possível, pois o convencimento parece passar, inclusive, pela hipnose: sem dúvida um liberal, destes que trabalham em think tanks, acredita realmente estar prestando um serviço social, está possuído pelo interesse alienígena daquele que o financia.

Neste contexto, podemos ver surgir um dos principais papéis da ciência. Ela serve sim para encontrar respostas para processos sociais e fenômenos naturais, assim como elaborar novos compostos e tecnologias, novas práticas organizacionais ou médicas, entre muitas outras coisas. Mas também, e talvez principalmente, a ciência concorre para separar o que é a opinião, a doxa, o interesse que deseja apenas atingir seus objetivos particulares, do conhecimento propriamente dito. O papel da ciência é tentar desfazer as brumas do entendimento, mesmo que espessas, mesmo que seculares, mesmo que se apresentem intransponíveis. Mesmo que sejam de fato impenetráveis… É aqui que a ciência se reveste da crítica.

Ora, defendemos aqui que a administração é também uma ciência. Porém, sem crítica não existe conhecimento, não existe ciência. Então, se o campo da administração não se construir de forma crítica, permanecerá como o que tem sido desde sua gênese: um espaço de opiniões acríticas, no qual ideólogos de folhetim ordenam seus pares a se concentrarem em construir e apresar riquezas sem refletir o Para Quem, Para Que, ou qual o Porquê de seu trabalho. Isto não é liberdade, é a maior prisão, é a celebração dos grilhões da ignorância.


[1] Convém dizer que, quando uso o termo “conhecimento concreto”, não quero dizer “conhecimento absoluto”. Chamarei aqui de conhecimento concreto aquele que é construído com o intuito real do saber, cujos pressupostos são colocados de maneira crítica não para defender um interesse de classe, mas para chegar a uma resposta ou a uma explicação sobre um objeto de conhecimento. O que não significa que não possa ser contestado, pois a possibilidade de contestação é, inclusive, um pressuposto para a verificação do conhecimento produzido pela ciência. E ainda, não significa que ele tenha que ser desprovido de sentido teleológico.


* Esse texto é uma repostagem. Nos idos de 2008, já estudante de graduação no Bacharelado em Ciências Econômicas da UFBA, logo depois de concluir o Bacharelado em Administração na mesma Universidade, eu escrevia um blog com esse mesmo título, Administração Crítica. Foram muitos textos elaborados com aquele ímpeto do estudante de graduação, de recém formado, com colocações pouco cuidadosas e até cheias de uma inocência teórica que, com o passar dos anos, foi se diluindo (para o bem e para o mal).

Em 2010 encerrei o blog. Mas, guardo um carinho especial por alguns daqueles escritos, que estão como documentos de minha história pessoal. Em minha opinião, revelam um cuidado teórico pouco refinado (acho que nem tenho ainda), mas já uma vontade enorme de fazer ciência crítica em administração. Por isso faço essa repostagem, como um exemplo de que é possível pensar criticamente na graduação, de que podemos querer mais do que reproduzir os saberes mainstream.

Quis muito revisar e melhorar o texto. Deixei como estava, com seus erros, imprecisões e frases de efeito desnecessárias. Acho que, como um relato de vida, bem como para fazer justiça a alguém que eu talvez já não seja mais, posso dizer que o escrito, quando publicado — mesmo neste tipo de veículo tão efêmero —, deixa de pertencer a nós.


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