São muitas as oportunidades que o senso comum, e até mesmo parte da academia especializada, vamos admitir, relega a Administração a pecha de ciência “menor”, apêndice da microeconomia, conjunto de técnicas cuja contribuição se resume a meramente controlar as condições de eficiência do trabalho. No entanto, em meu artigo intitulado Sobre o papel social do administrador, venho convidar a quem lê para romper com essa visão vulgar e tecnicista que reduz nossa profissão ao manejo de planilhas e à vigilância da produtividade alheia.
Uma das ironias que perpassa a existência do administrador reside em sua autopercepção de neutralidade. Frequentemente, o gestor acredita-se um técnico isento, operando em um vácuo político para “otimizar os usos de recursos”. No entanto, ao longo desta análise, parto do princípio que administradores são, na verdade, o ponto crítico onde as intenções sociais se transmutam em realizações práticas. Não somos meros operacionalizadores, mas arquitetos da manutenção — com um genuíno e único potencial crítico — do modo de produção material da sociedade capitalista.
No texto, essa discussão se ergue sob o prisma da perspectiva da Administração Política, mais especificamente no que concerne o alcance de seu conceito mais divulgado, de gestão das relações sociais de produção e distribuição. Nesse sentido, argumento que a gestão se manifesta em ao menos três demandas fundamentais depositadas sobre a administração (dimensão abstrata) e administradores (dimensão concreta):
- Uma à qual me refiro como função de gerência, que corresponde a instrumentalidade do capital e se manifesta no papel do administrador como promotor da eficiência interna das organizações burocráticas, notadamente com o intuito de garantir a formação e realização de mais-valor, controle do trabalho e distribuição desigual da renda;
- Por sua vez, a função estrategista, ou agente de antimercado, que se refere a maneira por meio da qual o alto escalão da gestão de corporações capitalistas não opera segundo a “mão invisível” do mercado, mas por meio da manipulação consciente de interesses, poder e fluxos de valor — quer por meio de alianças estratégicas, lobbying, cartéis, monopólios e outras formas de influência sobre o Estado — pretendendo mitigar o risco da concorrência que o discurso liberal tanto exalta.
- Por fim, a o papel como cientista social, dedicado ao estudo do objeto da administração, a gestão. Processo social o qual, diga-se de passagem, se manifesta no âmbito da gerência e estratégia como uma administração profissional, um rol de princípios imanentes de gestão aceitos como racionais em um dado espaço sócio-político, assim como em escala mais ampliada, na forma de mecanismos de concertação social para sustentação simbólica, política e material do modo de produção capitalista.
Este artigo não é um manual de boas práticas, mas um panfleto para a desalienação. Convido a todes entenderem que administradores, ao gerirem a coordenação de grupos transdisciplinares, organizações, corporações de negócios, mesmo Estados e igrejas, detém em mãos a própria configuração do padrão material da existência humana. Assim, trata-se de uma leitura para aqueles que não se contentam em ser apenas engrenagens, mas que desejam compreender a as nuances de racionalidade que move a máquina capitalista.
Convido para a leitura do texto na íntegra. Será para mim uma honra.
Referências
Cristaldo, Rômulo C. (2009). Sobre o papel social do administrador. Revista Brasileira de Administração Política, 2(1), 45-62. https://periodicos.ufba.br/index.php/rebap/article/view/15491
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